Quantos sexos humanos existem? (spoiler: dois)

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Traduzido por Ágata Cahill

Há mais de dois sexos humanos?

(Resposta ao SciShow)

Por Zach Elliot, The Paradox Institute.
Canal com mais de seis milhões de seguidores publica vídeo defendendo a ideia de que “o sexo biológico é um espectro”.

Em 2019, o canal do YouTube de educação científica SciShow lançou um vídeo chamado ‘Existem mais de dois sexos humanos‘ [1]. O anfitrião Hank Green diz na introdução que: “Quando estudamos biologia no ensino médio, aprendemos que os humanos nascem com cromossomos XX ou XY e que os órgãos sexuais internos e externos de uma pessoa correspondem a esses cromossomos. Acontece, porém, que o sexo não é assim tão simples.”

Neste vídeo, Green descreve várias condições médicas congênitas do sistema reprodutivo para provar que existe um espectro de sexo. Essas raras condições (conhecidas como Diferenças do Desenvolvimento Sexual, DDSs para abreviar, e classicamente conhecidas como intersexo) produzem variações cromossômicas, hormonais e genitais atípicas [2].

Mas essas condições médicas congênitas formam novos sexos, criando um espectro sexual, como afirma o SciShow? Ou essas condições são simplesmente variações entre homens e mulheres, revelando a diversidade do binário sexual?

Para responder a essa pergunta, precisamos definir o que é sexo.

O SciShow define sexo como “cromossomos, hormônios, gônadas e genitais”. Essa definição de sexo implica que qualquer combinação atípica dentro dessas quatro categorias fornece evidências para um espectro sexual. O problema, no entanto, é que mesmo nos casos em que essas categorias não se alinham, os mecanismos genéticos e hormonais ainda produzem um macho ou uma fêmea. Por quê?

Porque os indivíduos com DDSs ainda desenvolvem sistemas reprodutivos organizados em torno de esperma ou óvulos. E aqui descobrimos um componente crucial para a definição de sexo que Green nunca menciona: gametas.

Um macho é o sexo que desenvolve um sistema reprodutivo organizado em torno de gametas pequenos, e uma fêmea é o sexo que desenvolve um sistema reprodutivo organizado em torno de gametas grandes. Como observam dois biólogos evolucionistas, os traços relacionados ao sexo variam, mas a distinção última entre os sexos é encontrada nos gametas: “Em muitas espécies, existe todo um conjunto de traços sexuais secundários, mas a definição fundamental de sexo está enraizada nessa diferença nos gametas, e a questão da origem dos dois sexos é portanto igual à questão de porque os gametas têm dois tamanhos diferentes” [3]. Qualquer definição de sexo que não inclua a razão pela qual possuímos um sexo em primeiro lugar (para apoiar a produção de espermatozóides ou óvulos) está errando o alvo [4]. Ao ignorar a definição de sexo, Green é capaz de afirmar que variações nos cromossomos, produção hormonal e morfologia genital formam novos sexos.

O problema com a afirmação de Green sobre um espectro sexual é que as DDSs não formam novos sexos, mas, sim, mostram a variação entre machos e entre fêmeas. Para criar um novo sexo, uma nova função reprodutiva teria que ser evidente, o que exigiria a existência de um terceiro tipo de gameta. No entanto, indivíduos com DDSs ainda desenvolvem um sistema organizado em torno de esperma ou óvulos, não algo novo.

Vamos revisar várias das condições médicas congênitas discutidas por Green. Indivíduos com cromossomos XXY e XYY, por exemplo, são machos (por desenvolverem um sistema organizado em torno de esperma); já indivíduos com cromossomos X ou XXX são fêmeas (por desenvolverem um sistema organizado em torno de óvulos) [5] [6] [7]. Compreender DDSs mais complexas revela os mecanismos subjacentes que produzem o binário sexual.

Condições como a Síndrome de Insensibilidade a Andrógenos Completa (CAIS) nos mostram a independência do gene SRY e dos receptores de andrógenos. Apesar da ativação do SRY, o feto XY com CAIS desenvolve um fenótipo feminino devido a uma insensibilidade aos hormônios androgênicos [8]. A síndrome de Swyer nos mostra que, quando o gene SRY não é ativado no feto XY, estruturas reprodutivas femininas se desenvolvem, levando a um fenótipo feminino [9]. A síndrome do sexo masculino XX nos mostra o que acontece quando o gene SRY se transloca para um cromossomo X, causando um desenvolvimento masculino no feto XX [10]. E indivíduos com mosaicismo genético, que têm uma mistura de células XY e XX, se desenvolvem como machos ou fêmeas, não ambos e não algo no meio [11].

Agora imagine ter uma diferença de desenvolvimento sexual, como a Hiperplasia Adrenal Congênita (que pode causar desenvolvimento genital atípico em meninas), e descobrir que sua condição está sendo usada para argumentar que você não é do sexo feminino [12]. Ou imagine ter a Síndrome do Duto Mülleriano Persistente, PMDS (que faz com que partes da estrutura mülleriana, como um útero parcial, permaneçam em meninos), e alguém afirme que você não é do sexo masculino [13].

Meninas com hiperplasia adrenal congênita são do sexo feminino, uma vez que se desenvolveram para a produção de óvulos, e meninos com PMDS são do sexo masculino, já que se desenvolveram para a produção de espermatozóides. Como você pode ver, cada DDS se desenvolve em direção a um ou outro sistema reprodutivo, e o indivíduo é ou macho ou fêmea, não algo intermediário, nem um terceiro sexo [14].

Se Green definisse o sexo biológico como as duas anatomias reprodutivas evoluídas e organizadas em torno de dois gametas, ele não poderia argumentar que existem mais de dois sexos [15]. Portanto, se você vir o vídeo do SciShow sendo apresentado, entenda que:

1) Eles não usam a definição fundamental de sexo.

2) Eles apresentam pesquisas de décadas atrás sobre DDSs, não novas descobertas científicas.

3) Eles tratam pessoas com condições médicas complexas como nem sendo do sexo masculino, nem do feminino.

Hank Green está correto sobre o desenvolvimento sexual ser mais complexo do que o que a maioria de nós aprendeu no ensino médio, mas isso não significa que haja mais de dois sexos humanos. Existem apenas dois gametas e, portanto, apenas dois sexos. As complexidades da diferenciação e desenvolvimento sexual nos mostram a incrível variação de anatomia e fisiologia entre machos e entre fêmeas [16]. Não precisamos negar a ciência para aceitar essa diversidade.

Fontes:

[1] Green, H. (2019). There Are More Than Two Human Sexes. SciShow, YouTube.

[2] National Health Service. (2019). Differences in sex development. NHS.

[3] Lehtonen, J., Parker, G. (2014). Gamete competition, gamete limitation, and the evolution of two sexes. Molecular Human Reproduction, 20(12).

[4] Czaran, T., Hoekstra. R. (2004). Evolution of sexual asymmetry. BMC Evolutionary Biology, 4(34).

[5] Kimball, J. (2020). Sex chromosomes. LibreText.org.

[6] Gilbert, SF. (2000). Chromosomal sex determination in mammals. Developmental Biology, 6th edition. Sunderland (MA), Sinauer Associates.

[7] Kashimada, K., Koopman, P. (2010). Sry, the master switch in mammalian sex determination. Development, 137.

[8] NIH. (2020). Androgen insensitivity syndrome. Genetics Home Reference, National Library of Medicine.

[9] NIH. (2020). Swyer syndrome. Genetics Home Reference, National Library of Medicine.

[10] Anik, A., et al. (2013). 46,XX Male DSD: A Case Report. Journal of Clinical Research in Pediatric Endocrinology, 5(4).

[11] Dumic, M., et al. (2008). Report of Fertility in a Woman with a Predominantly 46,XY Karyotype in a Family with Multiple Disorders of Sexual Development. The Journal of Clinical Endocrinology and Metabolism, 93(1), 182-189.

[12] NIH. (2020). 21-hydroxylase deficiency. Genetics Home Reference, National Library of Medicine.

[13] NIH. (2020). Persistent Mullerian Duct Syndrome. Genetics Home Reference, National Library of Medicine.

[14] Wilson, G. (2013). Third sex redux. Intersex Human Rights Australia.

[15] Cox, P., Togashi, T. (2011). The Evolution of Anisogamy, A Fundamental Phenomenon Underlying Sexual Selection.

[16] Schmitt, D. (2017). Sex and Gender are Dials (Not Switches), Psychology Today.

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