“Energia positiva de cobra é veneno” e outras coisas que concluí após o câncer

TO WHOM IT MAY CONCERN.

Todos estamos, mesmo quando tentamos evitar, em permanente mudança. Cada escolha que tomamos, acaso ou consequência com que lidamos, dos decisivos aos mais banais, é responsável por nos manter sempre um pouco diferente da pessoa do minuto anterior. E alguns eventos em especial, num efeito dominó, trazem uma carga potencial de “mudança” maior do que muitos outros.

Esses eventos podem oferecer novas perspectivas sobre assuntos que já nos eram familiares ou, quem sabe, abrir espaço para outros dos quais nunca paramos para refletir. Eles podem confirmar ou refutar nossas crenças e conclusões prévias sobre o mundo, cristalizar uma linha de raciocínio ou alterá-la radicalmente.

Prazer, meu nome é Ágata. sou uma mulher transexual de vinte anos de idade. Na metade do ano passado, 2018, fui diagnosticada com Leucemia Linfóide Aguda. No momento em que escrevo isso, estou apenas a alguns meses de distância de realizar um transplante de medula óssea e, possivelmente, encontrar minha cura. Esse texto é um compilado do que eu aprendi no meio do caminho, e hoje julgo importante compartilhar.

Fico feliz que esse título curioso tenha fisgado sua atenção. Preparado para o relatório?


SUMÁRIO

  1. Emoção e razão são conflituosas, porém complementares. Emoções são importantes pois são experiências humanas legítimas, a razão é importante pois permite que continuemos sãos para vivermos as primeiras de forma saudável.
  2. O maior ato de empoderamento que posso realizar enquanto “minoria oprimida” é não ter medo de ser honesta e transparente em um mundo de extremos.
  3. É preciso valorizar sua família até a última instância viável, pois nela se encontram as pessoas com a maior probabilidade de advogarem por sua vida.
  4. Energia positiva de cobra é veneno.

1. EMOÇÃO E RAZÃO

Emoção e razão são conflituosas, porém complementares. Emoções são importantes pois são experiências humanas legítimas, a razão é importante pois permite que continuemos sãos para vivermos as primeiras de forma saudável.

Você se considera uma pessoa emotiva ou racional? De que forma seu melhor amigo responderia essa pergunta sobre você? E seus pais? E seus inimigos? Como você reagiria diante da até então pior notícia da sua vida? E da melhor? O que a resposta da primeira pergunta tem realmente a ver com a resposta de todas as outras?

Nos primeiros dias de setembro, quando o hematologista me encarou nos olhos e revelou que o diagnóstico mais provável pro meu problema era leucemia, eu o encarei de volta, passei o olhar no rosto da minha mãe por alguns segundos e fiz florescer em minha mente um único e profundo pensamento que me acompanhou por todo o resto da conversa:

“Puta merda, meu cabelo vai cair.”

Há várias formas de se interpretar a reação de alguém que, ao receber o diagnóstico de câncer, não expressa de imediato nenhum pensamento ou dúvida mórbida; alguém que passa longe dos clássicos relatos de sentir “o chão abrindo”, ficar paralisado, ficar tudo menos paralisado, chorar até parecer um tomate murcho ou pedir por um exame novo, um médico novo, um hospital novo e, no caminho, um copo d’água, por favor.

“Você é a pessoa mais forte que eu conheço”, escutei de alguém. “Eu, no seu lugar, estaria em prantos até hoje”, escutei de outra. “Você desafia a imagem do papel de doente“, comentou uma ex-professora do curso de Psicologia, graduação que tive que pausar temporariamente para dar seguimento ao tratamento. “Mas afinal, se não temeu pela vida, o que pensou na hora?”, muitos ficaram curiosos.

E é então que você descobre que quando a informação “ausência de morbidade” é complementada pelas seis palavras que legendam a imagem mais acima, os elogios e a admiração que vinha recebendo logo se convertem em descrença e uma urgência inquietante do ego alheio de te esclarecer o óbvio.

Pois há, também, várias formas de se interpretar a reação de alguém que, ao receber o diagnóstico de câncer, teve como primeira e protagonizante preocupação a queda do próprio cabelo.

Talvez você não tenha – por ignorância, quem sabe -, entendido com clareza a gravidade da sua doença. Talvez seja, na falta de um melhor vocabulário, exageradamente vaidosa. Talvez o patriarcado opressivo e o culto à beleza e confirmação da feminilidade tenham corrompido sua mente ao ponto de fazê-la perder o foco do seus “reais” problemas.

Ou, talvez, você esteja tão ciente de todas essas particularidades e nuances, que nesse momento você só queira ficar triste e frustrada em paz por aquilo que está de fato a angustiando, e não pelo que todas as outras pessoas ao seu redor esperam que você se angustie.

Essa é a importância da emoção. Por mais passageira e por vezes difícil de se decodificar pelo olhar alheio, é verdadeira enquanto existe e é parte do que nos faz humanos. A razão, por sua vez, aquela que permite essas e tantas outras reflexões legítimas e bem-fundamentadas sobre o complexo mundo em que estamos inseridos e nossa relação com ele; aquela que pavimenta nosso caminho de amadurecimento, evolução intelectual e construção da identidade; é importante pois, quando equilibrada com nossos sentimentos mais confusos, impulsivos e inevitáveis, permite que continuemos plenamente sãos para desfrutarmos a vida e suas emoções de forma saudável.

Sim, é verdade que o contexto não era dos mais animadores: por pressão familiar, sempre precisei manter um corte baixo, “de garoto”, até mais ou menos meus dezessete anos. Dessa idade até os vinte, esperei ansiosa para vê-lo como o havia idealizado a vida quase inteira. E então, apenas uma semana após atingir o tamanho desejado, o assisti se despedir de mim no tempo de uma ducha.

Sim, doeu. Doeu muito. Por mais problematizações que possam fazer a partir desse relato, por mais culto e “empoderado” que seria sair do banho discursando coisas como “Foda-se o cabelo! Cabelo não dita beleza! Não tem nada a ver com gênero, não tem nada a ver com nada!“, distribuindo ao vento fotos tiradas do Google de mulheres lindas, cis e trans, carecas ou quase, aquele terrível sentimento permaneceria real. Era uma resposta a uma perda. Querer “desconstruir” o que já se encontra desmontado no chão soa, com toda sinceridade, desumanizante.

Para concluir, à vista de tudo isso e pondo da forma mais sucinta que posso, meu cabelo, por mais relevante para minha autoestima que pudesse ser, estava dentro do meu alcance de atuação por ser tecnicamente substituível com algo ao redor de cem reais; minha saúde, não.

Eu não tenho controle sobre minha doença. Posso até ajudar a mim mesma durante o caminho, mas estou longe de ser capaz de estralar os dedos e evaporar minhas células cancerígenas, tampouco preparar uma poção para desfazer as mutações genéticas aleatórias que, ao que tudo indicam, causaram meu quadro. Só o tempo e um bom tratamento poderiam me salvar: logo, seria um inquestionável desperdício de energia me descabelar (sei que vou me arrepender desse trocadilho) ocupando minha mente com coisas que estão fora do meu alcance de atuação.

No final das contas, seguindo pelo caminho que segui, creio que pude tanto vivenciar plenamente meus sentimentos quando eles vieram quanto usar da razão para administrar minhas energias e encarar minha questão-problema da melhor forma que conseguiria. E o melhor: sem ter gastado um só centavo com palestras de coaching.


2. EMPODERAMENTO

O maior ato de empoderamento que posso realizar enquanto parte de uma “minoria oprimida” é não ter medo de ser honesta e transparente em um mundo de extremos.

Acredito que o contexto que preciso apresentar para explicar minha próxima realização não seja grande novidade para você. Por via das dúvidas, caso você tenha estado em coma pelos últimos, eu não sei, dois ou três anos, tenho uma péssima notícia para dar: nosso país está dividido entre dois extremos fora do alcance da ordem e da razão e muito provavelmente você, assim como eu, não possui os recursos para dar o fora daqui o mais rápido possível.

Charge por Zé Dassilva

Como a raiz de boa parte do problema está na perda da capacidade de percepção de nuances em si, e não apenas nessa perda em um espaço ou âmbito específico, sua extensão vai muitíssimo além do que o mero cenário político brasileiro. Imagino, porém, que esse seja o exemplo mais palpável que poderia usar nessa introdução. E conheço alguém bem melhor do que eu para falar sobre ele:

Cada um dos doze minutos desse vídeo do chargista Maurício Ricardo vale a pena ser assistido – logo, fica minha recomendação para conferi-lo até o final -, mas a razão de escolhê-lo se apresenta na fala já de seus primeiros segundos: “Sabe aqueles filmes de bairros perigosos que têm disputas entre duas gangues, e é melhor você andar com uma gangue, senão você vai apanhar das duas? Então, essa é a internet do Brasil hoje.”

Certa vez ouvi alguém dizer que “se você ainda não foi chamado pela extrema-direita de comunista e pela extrema-esquerda de fascista, você ainda não viveu”. Outros afirmam ainda que se você conseguiu irritar os dois lados do espectro ao mesmo tempo, é porque muito provavelmente está seguindo no caminho certo.

Se estou “no caminho certo” não posso garantir, mas de uma coisa eu sei: sempre que me forcei a ter uma visão crítica minimamente equilibrada sobre literalmente qualquer assunto, rótulos não me faltaram. Não faltaram em situação alguma, para falar a verdade. Tenha em mente que para muitos, o simples fato de me colocar no mundo enquanto transexual (ou seja, de existir) já é um ato político em si, quando não uma blasfêmia. Parece até exagero pensar que, para alguém, a sua própria existência seja uma espécie de crime contra uma ordem divina, mas falo bem sério que é exatamente assim que uma grande parcela da população foi ensinada a enxergar “pessoas como eu”.

O resultado dessa grande bagunça chega a ser engraçado de analisar:

Por defender os ideais de equidade que defendo, já fui acusada de “problematizar demais” por uns e de “passar pano demais” por outros.

Por me identificar com o centro e pontos específicos de cada “lado”, já fui “esquerdopata” e “simpatizante da direita” no mesmo dia.

Por questionar tanto as pautas da militância LGBT+ na contemporaneidade quanto os embustes armados contra a mesma, já fui diagnosticada como tendo sofrido “lavagem cerebral da justiça social” na mesma proporção que “transfobia internalizada”.

E por ser quem eu sou e pensar o que penso sobre o que sou, já fui chamada de “negador da ciência” (no masculino mesmo) por alguém que claramente não tinha noção de 1% do que a ciência realmente fala sobre transexualidade, e associada pejorativamente ao “discurso cientificista” não por de fato propagar uma ideia cientificista, mas rejeitar a leitura pós-moderna de que a verdade (e, por tabela, a objetividade científica) é construída pelo poder.

Percebo ser um choque para alguns descobrir que nem toda pessoa com meu perfil (trans, estudante de Psicologia, liberal, etc) é invariavelmente adepta ao construtivismo social ou trata os trabalhos de Foucault como a Bíblia Sagrada. Se for esse seu caso, deixo aqui minhas desculpas pelo transtorno que causei e meu mais sincero vá pela sombra.

Onde quero chegar e o que isso tudo tem a ver com empoderamento?

Lembra-se do que o Maurício falou sobre gangues? Haveria um tempo onde eu teria receio de expressar minhas opiniões sobre determinado assunto por saber que tais ideias e proposições iriam de encontro com o discurso dominante no qual minha “gangue” havia sido cuidadosamente catequizada durante sua procura por acolhimento.

Haveria um tempo onde eu pensaria duas vezes antes de defender o conteúdo do DSM-V (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais; 5.ª edição) em uma roda de conversa sobre a “despatologização da transexualidade”. Há relutância em boa parte da comunidade acadêmica em enxergar que isso já aconteceu desde que “Transtorno de Identidade de Gênero” virou “Disforia de Gênero”, e que nossos esforços deveriam agora estar focados nas aplicações práticas disso. Em vez disso, damos voltas querendo consertar o que não está quebrado porque essa ou outra terminologia pode ser ofensiva para certos “doutores em estudos de gênero” que parecem terem sido condicionados a se ofender de forma recreativa.

Mas se há algo que os movimentos identitários defendem é que você seja uma “pessoa empoderada” que, respeitando o local de fala do outro, não hesita antes de se pôr contra a injustiça e os discursos autoritários e reacionários.

Charge por Ivan Cabral

E aqui estou eu, empoderada e dentro do meu hipotético “lugar de fala” afirmando que o maior ato de empoderamento que eu poderia realizar enquanto parte de uma minoria é o mesmo do de todas as outras pessoas em um mundo onde todos, sem exceção, cada qual da sua forma, sofrem com o tribalismo social: não ter medo de ser honesta e transparente sobre o que acredito, mesmo que isso signifique questionar minha própria tribo.

É preciso ter humildade na hora de defender suas opiniões. Você sempre pode estar errado. Ao mesmo tempo, reprimir o produto das próprias reflexões sobre o mundo em função da aceitação dentro de uma “facção” é um lugar do qual eu prefiro esquecer o caminho.


3. FAMÍLIA

É preciso valorizar sua família até a última instância logicamente viável, pois nela se encontram as pessoas com a maior probabilidade de advogarem por sua vida.

Se você tem a minha idade ou menos, talvez esteja exausto de ouvir pessoas mais velhas falarem sobre como elas achavam que “sabiam de tudo” na sua idade e como a vida se encarregou de lhe quebrar a cara na hora certa. Sinto informar que eu serei mais uma delas.

Ao mesmo tempo, se você é mais velho e/ou por acaso nunca teve que se preocupar com a forma com a qual sua família iria reagir ao descobrir sua sexualidade ou identidade de gênero, é possível que tenha lido minha terceira realização e pensado “Mas e por quê raios ela não valorizava a família plenamente antes da doença?!”

Me permita falar um pouco sobre meus pais, as pessoas que a vida inteira o mundo me ensinou serem “meu porto seguro, aconteça o que acontecer”. Eles não absorveram a ideia de que haviam tido uma filha em vez de um filho da melhor forma que achei que poderiam, mas com toda certeza não receberam isso da pior. No mais, era quase como se eles fingissem que não sabiam de nada. Por ter acabado nesse “meio termo”, passei o período de um ano em uma espécie de limbo emocional onde eu não exatamente podia dizer que havia sido acolhida, mas também não poderia lamentar ter sido chutada para fora de casa.

Assista ao curta “The Real Thing” clicando aqui ou na imagem. Lenços recomendados.

Nessa época, lembro de estar atravessando um dos corredores da faculdade com uma amiga quando ela, após me ver cumprimentando, quem sabe, a décima pessoa na última meia hora, brinca sobre como eu “conhecia metade da faculdade” e que se continuássemos naquela situação, chegaríamos ao nosso destino a tempo da festa de formatura começar.

Parece legal, não parece? Ter tantos rostos amigos por perto.

Agora, vou fazer uma pergunta sobre a fase seguinte da minha vida, e quero que tome o tempo que precisar para adivinhar a resposta: quando eu fui diagnosticada com câncer e precisei, durante o tempo de sete meses, ficar cerca de vinte dias por mês internalizada no hospital onde fazia o tratamento, quantas pessoas além da minha mãe passaram pelo menos uma única noite comigo sem receber nenhum centavo em troca?

Vou dar uma dica: é um número redondo e rima com “esmero”.

Espero que não me entenda mal; não é minha intenção aqui fazer um caso sobre minha árvore de amizades. De certo houve desejo em me ajudar e até algumas ofertas (não concretizadas) envolvendo finais de semana; não podemos deixar de levar em conta, também, que o tratamento não aconteceu na minha cidade, mas sim em Recife, onde até então eu deveria ter menos de meia dúzia de conhecidos próximos.

Mas se você parar um momento e fizer o exercício mental de se imaginar na minha situação e se perguntar quem seria capaz de largar tudo o que está fazendo e mudar radicalmente de rotina, f- as consequências, para te acolher em um hospital até do outro lado do país… é muito provável que a resposta esteja no seu círculo familiar.

É por isso que quando me deparo com aquele famoso “Mal vejo a hora de morar sozinho!” vindo de um adolescente de quinze anos que se sente incompreendido pelos pais, o melhor que posso fazer é aconselhá-lo a ter paciência e torcer para que ele não seja tão tolo quanto eu fui aos meus quinze anos, e que ao menos tente trabalhar isso em si mesmo.

Não se enganem: existe um bom motivo para especificarmos “até a última instância viável”. Há famílias genuinamente destrutivas por aí. Pais podem ser abusivos de inúmeras formas, partindo das mais sutis chantagens emocionais até a mais flagrante agressão física ou sexual. Seus atos devem ser reconhecidos e devidamente intervencionados. Também não é minha intenção chegar no ouvido ensanguentado de uma vítima de agressão cometida pelo próprio pai e dizer que “Mas sabe, gente velha é assim mesmo, você deveria ter mais paciência com ele!”. Minha mensagem não está sendo direcionada à essas pessoas, mas sim àquelas que estiveram ou ainda estão no mesmo local que eu estive: o limbo do meio termo.


Eu não sei você, mas se eu visse esse girassol em algum lugar, correria para o mais distante que pudesse.
Cantando a discografia da Aline Barros.

4. ENERGIA POSITIVA

…de cobra é veneno.

Faziam só algumas semanas desde o início do meu tratamento quando, ainda no hospital, me vejo discutindo com a minha mãe sobre quem poderia ou não me visitar quando eu voltasse para casa.

“Mãe, eu não vejo essas pessoas há uma eternidade. Elas podem até se preocupar comigo em algum nível, mas se eu não tinha intimidade ou vontade de vê-las quando estava saudável, não há razão para fazer isso quando estou doente.”

“Mas são pessoas boas, pessoas que querem seu bem.”

Franzi a testa. Havia meses antes escutado por alto que uma delas teria insinuado que eu “acreditava ser trans” por “ter sido muito mimadO” pelos meus pais – e isso mesmo tendo sido criada da mesma forma que meu irmão, cis e heterossexual. (Mas seria pedir demais algum grau de raciocínio dessas pessoas , eu acho.)

“Eu tenho minhas dúvidas”, respondi.

“Independente (sic) de qualquer coisa, são pessoas que querem te ver e te dar uma força. É bom ter pessoas assim por perto. Elas passam energia positiva.”

“Mãe”, respondi, respirando fundo. “Energia positiva de cobra é veneno”.

Houve silêncio por um momento. É engraçado pensar como podemos soltar pérolas desse calibre e depois não fazermos ideia sobre o que nos levou até elas. Não sei em que trabalho esquisito de raciocínio meu cérebro se empenhou para trazer essas palavras ao mundo, mas devo confessar que quanto mais penso nelas, mais interpretações novas faço e ligações com situações anteriores da minha vida encontro.

A principal delas é o conceito que batizei de muleta emocional.

Imagine que você está andando na rua com um amigo, reclamando com ele sobre o bolo que levou do seu match do Tinder. No caminho você sugere que ambos se dirijam ao destino a pé, pois assim você poderá compensar os quilos que ganhou na noite anterior enquanto comia descontroladamente e/ou bebia irresponsavelmente para esquecer o desgraçado ou desgraçada que partiu seu coração.

De repente, uma surpresa: você esbarra em uma versão pouca glamourosa minha – careca, usando uma máscara descartável e debatendo com a minha mãe sobre a natureza duvidosa do café da manhã do hospital que vem sendo minha casa nos últimos seis meses. Você para, me abraça, faz suas perguntas genéricas sobre como estou e o que andei fazendo e se despede forçando um olhar de compaixão com tanta diligência que poderia facilmente roubar o emprego de metade do elenco de Malhação.

Com o coração tocado, você encara seu amigo e discursa: “Poxa, olha pra mim, cheio de saúde e reclamando desse monte de besteiras… Pelo menos eu não tenho câncer igual ela. Não tenho do que reclamar.” E assim, orgulhoso do grande exemplo de ser humano evoluído que você é, explica que não está mais na vibe de caminhar e resolve pegar o ônibus mesmo.

Curtiu a historinha? Já passou por alguma coisa parecida? Se sim, meus parabéns: você acabou de usar a deficiência de saúde de outra pessoa como ferramenta para se sentir melhor consigo mesmo e o estado da sua vida.

Não que eu queira demonizar você. Virtualmente todo mundo já fez uso dessa “muleta”, começando por mim! Ela pode, é interessante notar, se alongar indefinidamente entre a saúde plena e a morte dolorida. Em sua extensão, você encontrará pessoas que agradecem terem rinite alérgica e não câncer de rim, conhecerá pessoas com câncer de rim preferindo isso do que LLA, verá portadores de LLA agradecendo não sofrerem de sua variação mais grave, a LMA (Leucemia Mieloide Aguda) e se deparará com portadores de LMA concluindo que “Bem, ao menos não é Mielóide Crônica”.

Em resumo, “nada é tão ruim que não possa piorar”, e é esse pensamento que (ironicamente) conforta incontáveis pessoas por aí afora que precisam encontrar alguma forma de lidar com os eventos caóticos de sua vida. Não há nada de tenebrosamente imoral nesse pensamento – a não ser, é claro, que você o use de forma abusiva, pedindo detalhes sobre problemas alheios para poder compará-los com os seus. E, acima de tudo, caso a pessoa em questão acredite que está recebendo energias positivas vindas de você.


É disso que estão falando? E onde exatamente eu deveria introduzir? Posso testar em vocês primeiro?

A esse ponto do texto você já deve suspeitar que eu não sou a pessoa mais propensa a levar a sério argumentos que envolvam abstrações como “energia positiva”. Tenho certeza que estar perto de pessoas que gosto irá me fazer sentir bem, mas isso não necessariamente vai se repetir com a presença de meu primo de trilionésimo grau só porque ele está invocando algum tipo de superpoder metafísico para transmitir ondas de positividade enquanto me abraça, seja lá o que isso signifique.

Não sejamos ingênuos. Se conto para você que encontrei um doador de medula e receberei um transplante muito em breve, saberei diferenciar entre quem reage gritando “OH, MEU DEUS! QUE COISA MARAVILHOSA!” de quem fala “Caramba, mas a quimio que se faz antes é bem pesadinha, né?”. Objetividade é legal e eu muito aprecio quem consegue dizer o que precisa ser dito na minha cara sem arrodeios, mas se essa foi realmente a primeira coisa que você pensou quando ouviu minha notícia, talvez eu consiga uma energia positiva de melhor qualidade enfiando o dedo na tomada.


Conteúdo bônus: tweets da época em que eu fazia piadas sobre a minha própria doença para poder lidar melhor com ela (e ainda faço).


…Só me resta torcer agora para que esse câncer tenha sido uma aventura de uma temporada só. As próximas lições da vida eu posso aprender com um livro de autoajuda, obrigada.