Imagem por Paul Windle

Ensaio escrito por Candice H. “Kay” Brown Elliott e publicado em On The Science of Changing Sex, 5 de julho de 2017. Para fins de clareza, leves adaptações foram feitas no processo de tradução. Clique aqui para acessar o ensaio original.

Ao longo dos anos em que escrevo este blog, deliberadamente evitei usar o termo popular “não-conforme de gênero” (“gender non-conforming”), optando por “gênero-atípico” (“gender atypical”) em seu lugar. Isso pode ter chegado a alguns de meus leitores como estranho e idiossincrático, visto que tantos outros usam “GNC”. Fiz isso, porém, por várias razões importantes – algumas baseadas em ciência, outras em bases político-filosóficas.

As razões científicas são mais fáceis de explicar. Não existe um “padrão” com o qual o comportamento deva “conformar-se”. Existe apenas comportamento, ponto final. No entanto, se enquanto cientistas olharmos e estudarmos uma espécie com profundidade, podemos dizer que existem comportamentos que são executados por ela com muito mais frequência do que outros comportamentos vistos em outras espécies. Podemos rotular estes comportamentos como “típicos” para aquela espécie.

Se num determinado indivíduo observarmos um comportamento que é incomum para aquela espécie, podemos rotulá-lo de “atípico”; nunca, entretanto, o rotularíamos de “não-conforme”, uma vez que não podemos realmente dizer a qual padrão uma dada espécie deveria “conformar-se”. Os comportamentos são selecionados pela evolução a depender deles aumentarem ou não a ‘aptidão’ reprodutiva dos indivíduos que os exibem.

A mesma lógica se aplica aos sexos dentro de uma determinada espécie. Podemos observar comportamentos sexualmente dimórficos numa determinada espécie; isto é, rotularemos um comportamento como sexualmente dimórfico se virmos que ele é muito mais comumente executado por um sexo do que pelo outro. Se virmos um indivíduo apresentando tal comportamento incomum, podemos rotulá-lo de “atípico” para aquele sexo; mas rotulá-lo de “não conforme”? Isso soa como se estivéssemos invocando uma agência externa com autoridade para definir um padrão comportamental que a teoria da seleção natural não oferece. Assim como acontece com as espécies não-humanas, seres humanos não existem fora da natureza. Não há agência que defina para nossa espécie um padrão pelo qual será julgado se um determinado comportamento está ou não “conforme”.

As razões políticas incluem minha objeção pessoal à própria noção de que deveria haver tal “padrão”. Mas, ainda mais profundamente, é minha objeção à ideia pós-moderna de que não existem comportamentos sexualmente dimórficos intrínsecos nos humanos, mas, sim, apenas papéis socialmente construídos. Essa noção afirmaria que, uma vez que todas as diferenças de comportamento observadas entre os sexos humanos são construídas e mantidas socialmente, deve haver um padrão socialmente definido ao qual podemos nos sujeitar ou não. Outra ideia contra a qual me oponho é a de um padrão divinamente ordenado (religioso) ao qual devemos obedecer, o que tem o mesmo efeito. 

Essas ideias reduzem qualquer comportamento observado num indivíduo que seja incomum para seu sexo a um ato de “não-conformidade de gênero”, seja por acidente ou por vontade… nunca por natureza. Acho ambas as noções de que existimos fora da natureza cientificamente absurdas e filosoficamente ofensivas. Além disso, aqueles que buscam um tratamento humano para indivíduos gênero-atípicos descobrirão que precisam lutar com aqueles que sustentam essas ideias muitas vezes caindo em preconceitos inquestionáveis, cuja natureza é determinada pelo sistema de valores através do qual eles veem tais indivíduos gênero-atípicos, seja ele pós-moderno ou religioso.

Antes de entrar em detalhes sobre a natureza desses preconceitos e o que devemos argumentar, vamos explorar como sabemos que os seres humanos têm comportamentos sexualmente dimórficos que possuem correlatos neurais e vias de desenvolvimento que os conduzem. É importante diferenciar entre comportamentos que são comprovadamente sexualmente dimórficos em função de correlatos neurais daqueles que são meramente representações de papéis culturais e falsos estereótipos de gênero.

Assim, para os fins deste ensaio, eu diferencio entre uma hipótese construtivista social forte, que diz que todas as diferenças de comportamento são puramente culturais, e uma hipótese construtivista social fraca, que diz que alguns comportamentos e papéis de gênero são socialmente construídos em torno de comportamentos verdadeiramente sexualmente dimórficos e de limitações de papéis de gênero construídas em torno de preconceitos culturais e falsos estereótipos. É a hipótese construtivista social forte que mostrarei não ser sustentada pelas evidências.

Em outras páginas deste blog, fiz referência ao comportamento mais sexualmente dimórfico em humanos de todos: a androfilia (atração sexual por homens adultos). Para humanos do sexo feminino, é extremamente comum sentir atração por homens. Aproximadamente 98% das mulheres são [em algum nível] atraídas por homens, enquanto apenas cerca de 5-10% dos homens são [em algum nível] atraídos por outros homens. Alguém poderia objetar este ser um fenômeno “natural”, e dizer que foram as expectativas sociais que definiram isso. Mas isso não se encaixaria com as evidências acumuladas mostrando que a orientação sexual não é nem “escolhida”, nem “ensinada”. Além disso, por que os humanos deveriam ser únicos no mundo? A maioria das espécies de mamíferos são sexualmente dimórficas em suas atrações sexuais. (Não, eu não estou negando que a atração pelo mesmo sexo ocorre em espécies não-humanas… estou apenas dizendo que ela não é tão comum quanto a atração sexual pelo oposto.) Mas este não é o fim da história.

A orientação sexual em adultos é pressagiada pelo comportamento de gênero na infância. Ou seja, os humanos têm comportamentos sexualmente dimórficos quando crianças e a orientação sexual está altamente correlacionada com esses comportamentos. As crianças que crescem para se tornarem homossexuais evidenciam uma notável atipicidade de gênero. Os principais comportamentos que são considerados atípicos de gênero em meninos são evitar brincadeiras violentas, evitar agressões físicas, preferência por estilos de jogos e companheiras de brincadeira femininas, etc. Mas é aqui que começamos a enxergar a questão de ter que lidar com esses preconceitos.

Algumas culturas atribuem um sério estigma negativo à atipicidade de gênero, enquanto outras não. A maioria dos meus leitores provavelmente vive em culturas que endossam e reconhecem as horríveis recriminações na música “Garotos Serão Garotos” (“Boys Will Be Boys”); “Seu maricas, quem disse que podia chorar?” (“You bloody sissy, who said you could cry?”), até o apelo a uma autoridade que define o padrão ao qual uma criança deve se conformar, “Doutor, doutor, diga-me onde erramos?” (“Doctor, Doctor, tell me where did we go wrong?”). Mas nós, em nossa era iluminada, sabemos que os pais não fizeram nada de errado… (sim, você pode interpretar isso como sarcasmo).

Em outros ensaios neste blog, explorei parte da ciência que mostra que a orientação sexual está correlacionada com a atipicidade de gênero na infância, o efeito da ordem de nascimento fraternal, etc. Discuti possíveis hipóteses etiológicas. Já escrevi no passado sobre minha decepção com o uso das proporções de dígitos 2D:4D como um meio de explorar o possível efeito da variação de andrógenos ​​como estando correlacionada com a orientação sexual. Mas agora, eu quero compartilhar uma evidência realmente surpreendente que mostra que a exposição perinatal a andrógenos é provavelmente responsável pela masculinização do cérebro humano, sendo sua ausência responsável por afetar a atipicidade de gênero na primeira infância. Como Vicky Pasterski coloca:

Por agora, a maioria dos cientistas que estudam esse tópico provavelmente concordam que a homossexualidade definitivamente não é uma escolha, e que provavelmente não se deve a fatores socioambientais. Ao mesmo tempo, não parecem haver indicadores físicos de uma diferenciação sexual fetal interrompida em homens homossexuais que se encaixem na premissa básica da teoria hormonal do desenvolvimento sexual. No entanto, é possível que alterações no pico de androgênios que ocorre no período pós-natal inicial, também chamado de minipuberdade, possam ter efeitos que não são imediata ou fisicamente óbvios.

O Inventário de Atividades Pré-Escolares (PSAI) é uma escala psicométrica para a avaliação do comportamento de gênero em crianças pequenas. Três grupos foram divididos pela sua pontuação no PSAI. Pontuações altas representam resultados mais masculinos e menos femininos. Aqueles com maiores pontuações também apresentaram maior porcentagem de aumento no comprimento peniano nos primeiros três meses de vida (e não nos seguintes), correspondendo ao período da minipuberdade. (Pasterski et al., 2015)

Com base na descoberta de que o crescimento peniano nos primeiros três meses de vida se correlaciona com um aumento concomitante nos níveis de testosterona sérica, considerou-se a possibilidade de que o crescimento peniano poderia atuar como um substituto para a exposição neonatal a andrógenos e que as medidas de alteração podem estar relacionadas a resultados neurocomportamentais posteriores. Em um estudo longitudinal com 81 meninos com desenvolvimento típico, descobrimos que a força do pico de androgênios pós-natal precoce, desde o nascimento até aproximadamente os três meses de idade, previu o comportamento masculino aos 4 anos de idade. Ao controlar os efeitos da exposição pré-natal a andrógenos usando medidas de comprimento peniano e distância anogenital (AGD; sexualmente dimórfica e quase duas vezes mais longa em homens em comparação com mulheres) no nascimento, mostramos que o crescimento peniano nos primeiros três meses de vida, mas não depois disso, explicava a variação significativa no comportamento tipificado por sexo posterior. Na análise de regressão geral, que controlou vários fatores, o comprimento do pênis ao nascer não foi relacionado ao comportamento tipificado por sexo. Isso sugere que a interrupção da minipuberdade masculina pode ter implicações nos resultados relacionados-a-sexo futuros, mascarados por uma aparência típica ao nascimento. Além disso, isso fornece suporte para a hipótese de que a exposição hormonal precoce (pós-natal) influencia aspectos do desenvolvimento tipificado por sexo nos homens, de maneira semelhante à exposição hormonal pré-natal que se presume afetar as mulheres.

Na pesquisa de Pasterski, ela dividiu os meninos em três grupos com base em seu comportamento de gênero segundo o Inventário de Atividades Pré-Escolares (PSAI), e o mapeou contra a taxa de crescimento de seus órgãos genitais nos primeiros meses após o nascimento, o que foi demonstrado correlacionar-se com a exposição a andrógenos. (Embora para ser completo, também possa se correlacionar com o nível de sensibilidade dos receptores de andrógenos. Para meus propósitos, iremos supor que isso teria o mesmo valor epistêmico.) Os resultados são dramáticos, vemos sem ambiguidade que a taxa de crescimento da genitália está positivamente correlacionada com o comportamento típico de gênero. Isso também significa que o inverso é verdadeiro. O comportamento gênero-atípico está inversamente correlacionado ao crescimento genital perinatal [nesse período].

Se a hipótese construtivista social forte fosse verdadeira, essa correlação não existiria. Podemos rejeitá-la. No máximo, temos uma hipótese construtivista social fraca de construção de papéis de gênero em torno de diferenças sexualmente dimórficas muito reais. Aqueles que satirizam essa conclusão chamando-a de teoria “Lady Brain” estão simplesmente errados.

Foi observado anteriormente que crianças com comportamento gênero-atípico apresentam diferenças na “atratividade” facial. Isso se encaixa bem com a pesquisa acima, já que crianças do sexo masculino que não tiveram essa intensa “mini-puberdade” provavelmente permaneceriam neotênicas e, portanto, de aparência feminina. Isso provavelmente também se estende à adolescência anterior para explicar as diferenças bastante dramáticas na passibilidade entre as mulheres trans androfílicas e as mulheres trans ginefílicas. Ser gênero-atípica na organização cerebral levaria naturalmente a uma androfilia posterior, habilidades motoras gênero-atípicas (andar e gestos manuais femininos) e produção vocal gênero-atípica (“sotaque gay” – gay lisp – ou feminino).

Dado o preconceito religioso (ou visões sociais relacionadas a gênero), pode-se facilmente ver como as crianças que exibem esses comportamentos atípicos são colocadas sob uma tremenda pressão para “se conformar” aos padrões de comportamento de gênero que tendem a se inclinar para o gênero-típico, ou mesmo um exagero do comportamento típico. As crianças que atendem a esse padrão são prestigiadas e elogiadas acima de outras crianças. Ou seja, a tipicidade de gênero extrema é valorizada assim como a padrão, e garante privilégios ante as crianças que falham em cumprir esse padrão.

Aqui eu opino, talvez até mesmo hipotetize, que esta pressão para se conformar aos padrões normativos de papéis de gênero distorceu o que seria o curso natural de desenvolvimento das crianças gênero-atípicas e levou à criação da artificial normatividade de gênero da cultura gay e lésbica ocidental, especialmente o padrão gay masculino de “aparência heterossexual/performance heterossexual”, ao qual as crianças do sexo masculino gênero-atípicas devem aderir. Para aqueles fora da comunidade, o benefício desse padrão artificial era originalmente forçar os gays a permanecerem no armário. À medida que o movimento ocidental de Libertação Gay ganhava terreno, aqueles que haviam aceito tacitamente esse padrão começaram a forçá-lo sutil e não tão sutilmente.

Poderíamos, à primeira vista, acreditar que aqueles que acreditam na hipótese construtivista social forte não teriam escrúpulos em aceitar sem reservas crianças e adultos gênero-atípicos como rompendo estereótipos. Mas, como podemos facilmente discernir, muitas vezes não o fazem, como demonstrado pelo movimento minoritário dentro das comunidades gays e lésbicas (principalmente lésbicas) de ser “crítico-de-gênero”. Eles aprovam filosoficamente que as pessoas sejam gênero-atípicas… mas apenas até um ponto muito específico, aceitando os papéis normativos de gênero que foram estabelecidos durante o início do Movimento de Libertação Gay. No momento em que um indivíduo ultrapassa esse ponto, haverá aqueles que irão denunciá-lo como se ele estivesse seguindo os próprios estereótipos que ele quebra, mas no sentido do gênero oposto, negando aquele comportamento sexualmente dimórfico subjacente como válido.

Em alguns casos, foram feitas denúncias públicas da própria existência de indivíduos gênero-atípicos do sexo masculino (por exemplo, a denúncia pública de Jean O’Leary contra Silvia Rivera e outras transativistas androfílicas como estando “zombando das mulheres” na comemoração de Stonewall de 1973 por usar roupas femininas). Na internet hoje, essa mesma proscrição de papéis de gênero é feita quando mulheres trans androfílicas são rechaçadas nos termos mais feios: “só porque você é um homem gay, não significa que você pode ser desculpado por objetificar as mulheres (por parecer e agir como uma ).”  Assim, vemos que o policiamento de papéis de gênero com base na aceitação de padrões normativos de gênero existe mesmo nas comunidades LGB modernas.

REFERÊNCIAS

Pasterski, V., “Fetal Androgens and Human Sexual Orientation: Searching for the Elusive Link”, (2017) Archives of Sexual Behavior / https://link.springer.com/article/10.1007/s10508-017-1021-6

Pasterski, V., et al., “Postnatal penile growth concurrent with mini-puberty predicts later sex-typed play behavior: Evidence for neurobehavioral effects of the postnatal androgen surge in typically developing boys”, (2015) Hormones and Behavior / http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0018506X15000033#f0005