Gênero-atípico ou em não-conformidade de gênero?

Imagem por Paul Windle

Ensaio escrito por Candice H. “Kay” Brown Elliott e publicado em On The Science of Changing Sex, 5 de julho de 2017. Para fins de clareza, leves adaptações foram feitas no processo de tradução. Clique aqui para acessar o ensaio original.

Ao longo dos anos em que escrevo este blog, deliberadamente evitei usar o termo popular “não-conforme de gênero” (“gender non-conforming”), optando por “gênero-atípico” (“gender atypical”) em seu lugar. Isso pode ter chegado a alguns de meus leitores como estranho e idiossincrático, visto que tantos outros usam “GNC”. Fiz isso, porém, por várias razões importantes – algumas baseadas em ciência, outras em bases político-filosóficas.

As razões científicas são mais fáceis de explicar. Não existe um “padrão” com o qual o comportamento deva “conformar-se”. Existe apenas comportamento, ponto final. No entanto, se enquanto cientistas olharmos e estudarmos uma espécie com profundidade, podemos dizer que existem comportamentos que são executados por ela com muito mais frequência do que outros comportamentos vistos em outras espécies. Podemos rotular estes comportamentos como “típicos” para aquela espécie.

Se num determinado indivíduo observarmos um comportamento que é incomum para aquela espécie, podemos rotulá-lo de “atípico”; nunca, entretanto, o rotularíamos de “não-conforme”, uma vez que não podemos realmente dizer a qual padrão uma dada espécie deveria “conformar-se”. Os comportamentos são selecionados pela evolução a depender deles aumentarem ou não a ‘aptidão’ reprodutiva dos indivíduos que os exibem.

A mesma lógica se aplica aos sexos dentro de uma determinada espécie. Podemos observar comportamentos sexualmente dimórficos numa determinada espécie; isto é, rotularemos um comportamento como sexualmente dimórfico se virmos que ele é muito mais comumente executado por um sexo do que pelo outro. Se virmos um indivíduo apresentando tal comportamento incomum, podemos rotulá-lo de “atípico” para aquele sexo; mas rotulá-lo de “não conforme”? Isso soa como se estivéssemos invocando uma agência externa com autoridade para definir um padrão comportamental que a teoria da seleção natural não oferece. Assim como acontece com as espécies não-humanas, seres humanos não existem fora da natureza. Não há agência que defina para nossa espécie um padrão pelo qual será julgado se um determinado comportamento está ou não “conforme”.

As razões políticas incluem minha objeção pessoal à própria noção de que deveria haver tal “padrão”. Mas, ainda mais profundamente, é minha objeção à ideia pós-moderna de que não existem comportamentos sexualmente dimórficos intrínsecos nos humanos, mas, sim, apenas papéis socialmente construídos. Essa noção afirmaria que, uma vez que todas as diferenças de comportamento observadas entre os sexos humanos são construídas e mantidas socialmente, deve haver um padrão socialmente definido ao qual podemos nos sujeitar ou não. Outra ideia contra a qual me oponho é a de um padrão divinamente ordenado (religioso) ao qual devemos obedecer, o que tem o mesmo efeito. 

Essas ideias reduzem qualquer comportamento observado num indivíduo que seja incomum para seu sexo a um ato de “não-conformidade de gênero”, seja por acidente ou por vontade… nunca por natureza. Acho ambas as noções de que existimos fora da natureza cientificamente absurdas e filosoficamente ofensivas. Além disso, aqueles que buscam um tratamento humano para indivíduos gênero-atípicos descobrirão que precisam lutar com aqueles que sustentam essas ideias muitas vezes caindo em preconceitos inquestionáveis, cuja natureza é determinada pelo sistema de valores através do qual eles veem tais indivíduos gênero-atípicos, seja ele pós-moderno ou religioso.

Antes de entrar em detalhes sobre a natureza desses preconceitos e o que devemos argumentar, vamos explorar como sabemos que os seres humanos têm comportamentos sexualmente dimórficos que possuem correlatos neurais e vias de desenvolvimento que os conduzem. É importante diferenciar entre comportamentos que são comprovadamente sexualmente dimórficos em função de correlatos neurais daqueles que são meramente representações de papéis culturais e falsos estereótipos de gênero.

Assim, para os fins deste ensaio, eu diferencio entre uma hipótese construtivista social forte, que diz que todas as diferenças de comportamento são puramente culturais, e uma hipótese construtivista social fraca, que diz que alguns comportamentos e papéis de gênero são socialmente construídos em torno de comportamentos verdadeiramente sexualmente dimórficos e de limitações de papéis de gênero construídas em torno de preconceitos culturais e falsos estereótipos. É a hipótese construtivista social forte que mostrarei não ser sustentada pelas evidências.

Em outras páginas deste blog, fiz referência ao comportamento mais sexualmente dimórfico em humanos de todos: a androfilia (atração sexual por homens adultos). Para humanos do sexo feminino, é extremamente comum sentir atração por homens. Aproximadamente 98% das mulheres são [em algum nível] atraídas por homens, enquanto apenas cerca de 5-10% dos homens são [em algum nível] atraídos por outros homens. Alguém poderia objetar este ser um fenômeno “natural”, e dizer que foram as expectativas sociais que definiram isso. Mas isso não se encaixaria com as evidências acumuladas mostrando que a orientação sexual não é nem “escolhida”, nem “ensinada”. Além disso, por que os humanos deveriam ser únicos no mundo? A maioria das espécies de mamíferos são sexualmente dimórficas em suas atrações sexuais. (Não, eu não estou negando que a atração pelo mesmo sexo ocorre em espécies não-humanas… estou apenas dizendo que ela não é tão comum quanto a atração sexual pelo oposto.) Mas este não é o fim da história.

A orientação sexual em adultos é pressagiada pelo comportamento de gênero na infância. Ou seja, os humanos têm comportamentos sexualmente dimórficos quando crianças e a orientação sexual está altamente correlacionada com esses comportamentos. As crianças que crescem para se tornarem homossexuais evidenciam uma notável atipicidade de gênero. Os principais comportamentos que são considerados atípicos de gênero em meninos são evitar brincadeiras violentas, evitar agressões físicas, preferência por estilos de jogos e companheiras de brincadeira femininas, etc. Mas é aqui que começamos a enxergar a questão de ter que lidar com esses preconceitos.

Algumas culturas atribuem um sério estigma negativo à atipicidade de gênero, enquanto outras não. A maioria dos meus leitores provavelmente vive em culturas que endossam e reconhecem as horríveis recriminações na música “Garotos Serão Garotos” (“Boys Will Be Boys”); “Seu maricas, quem disse que podia chorar?” (“You bloody sissy, who said you could cry?”), até o apelo a uma autoridade que define o padrão ao qual uma criança deve se conformar, “Doutor, doutor, diga-me onde erramos?” (“Doctor, Doctor, tell me where did we go wrong?”). Mas nós, em nossa era iluminada, sabemos que os pais não fizeram nada de errado… (sim, você pode interpretar isso como sarcasmo).

Em outros ensaios neste blog, explorei parte da ciência que mostra que a orientação sexual está correlacionada com a atipicidade de gênero na infância, o efeito da ordem de nascimento fraternal, etc. Discuti possíveis hipóteses etiológicas. Já escrevi no passado sobre minha decepção com o uso das proporções de dígitos 2D:4D como um meio de explorar o possível efeito da variação de andrógenos ​​como estando correlacionada com a orientação sexual. Mas agora, eu quero compartilhar uma evidência realmente surpreendente que mostra que a exposição perinatal a andrógenos é provavelmente responsável pela masculinização do cérebro humano, sendo sua ausência responsável por afetar a atipicidade de gênero na primeira infância. Como Vicky Pasterski coloca:

Por agora, a maioria dos cientistas que estudam esse tópico provavelmente concordam que a homossexualidade definitivamente não é uma escolha, e que provavelmente não se deve a fatores socioambientais. Ao mesmo tempo, não parecem haver indicadores físicos de uma diferenciação sexual fetal interrompida em homens homossexuais que se encaixem na premissa básica da teoria hormonal do desenvolvimento sexual. No entanto, é possível que alterações no pico de androgênios que ocorre no período pós-natal inicial, também chamado de minipuberdade, possam ter efeitos que não são imediata ou fisicamente óbvios.

O Inventário de Atividades Pré-Escolares (PSAI) é uma escala psicométrica para a avaliação do comportamento de gênero em crianças pequenas. Três grupos foram divididos pela sua pontuação no PSAI. Pontuações altas representam resultados mais masculinos e menos femininos. Aqueles com maiores pontuações também apresentaram maior porcentagem de aumento no comprimento peniano nos primeiros três meses de vida (e não nos seguintes), correspondendo ao período da minipuberdade. (Pasterski et al., 2015)

Com base na descoberta de que o crescimento peniano nos primeiros três meses de vida se correlaciona com um aumento concomitante nos níveis de testosterona sérica, considerou-se a possibilidade de que o crescimento peniano poderia atuar como um substituto para a exposição neonatal a andrógenos e que as medidas de alteração podem estar relacionadas a resultados neurocomportamentais posteriores. Em um estudo longitudinal com 81 meninos com desenvolvimento típico, descobrimos que a força do pico de androgênios pós-natal precoce, desde o nascimento até aproximadamente os três meses de idade, previu o comportamento masculino aos 4 anos de idade. Ao controlar os efeitos da exposição pré-natal a andrógenos usando medidas de comprimento peniano e distância anogenital (AGD; sexualmente dimórfica e quase duas vezes mais longa em homens em comparação com mulheres) no nascimento, mostramos que o crescimento peniano nos primeiros três meses de vida, mas não depois disso, explicava a variação significativa no comportamento tipificado por sexo posterior. Na análise de regressão geral, que controlou vários fatores, o comprimento do pênis ao nascer não foi relacionado ao comportamento tipificado por sexo. Isso sugere que a interrupção da minipuberdade masculina pode ter implicações nos resultados relacionados-a-sexo futuros, mascarados por uma aparência típica ao nascimento. Além disso, isso fornece suporte para a hipótese de que a exposição hormonal precoce (pós-natal) influencia aspectos do desenvolvimento tipificado por sexo nos homens, de maneira semelhante à exposição hormonal pré-natal que se presume afetar as mulheres.

Na pesquisa de Pasterski, ela dividiu os meninos em três grupos com base em seu comportamento de gênero segundo o Inventário de Atividades Pré-Escolares (PSAI), e o mapeou contra a taxa de crescimento de seus órgãos genitais nos primeiros meses após o nascimento, o que foi demonstrado correlacionar-se com a exposição a andrógenos. (Embora para ser completo, também possa se correlacionar com o nível de sensibilidade dos receptores de andrógenos. Para meus propósitos, iremos supor que isso teria o mesmo valor epistêmico.) Os resultados são dramáticos, vemos sem ambiguidade que a taxa de crescimento da genitália está positivamente correlacionada com o comportamento típico de gênero. Isso também significa que o inverso é verdadeiro. O comportamento gênero-atípico está inversamente correlacionado ao crescimento genital perinatal [nesse período].

Se a hipótese construtivista social forte fosse verdadeira, essa correlação não existiria. Podemos rejeitá-la. No máximo, temos uma hipótese construtivista social fraca de construção de papéis de gênero em torno de diferenças sexualmente dimórficas muito reais. Aqueles que satirizam essa conclusão chamando-a de teoria “Lady Brain” estão simplesmente errados.

Foi observado anteriormente que crianças com comportamento gênero-atípico apresentam diferenças na “atratividade” facial. Isso se encaixa bem com a pesquisa acima, já que crianças do sexo masculino que não tiveram essa intensa “mini-puberdade” provavelmente permaneceriam neotênicas e, portanto, de aparência feminina. Isso provavelmente também se estende à adolescência anterior para explicar as diferenças bastante dramáticas na passibilidade entre as mulheres trans androfílicas e as mulheres trans ginefílicas. Ser gênero-atípica na organização cerebral levaria naturalmente a uma androfilia posterior, habilidades motoras gênero-atípicas (andar e gestos manuais femininos) e produção vocal gênero-atípica (“sotaque gay” – gay lisp – ou feminino).

Dado o preconceito religioso (ou visões sociais relacionadas a gênero), pode-se facilmente ver como as crianças que exibem esses comportamentos atípicos são colocadas sob uma tremenda pressão para “se conformar” aos padrões de comportamento de gênero que tendem a se inclinar para o gênero-típico, ou mesmo um exagero do comportamento típico. As crianças que atendem a esse padrão são prestigiadas e elogiadas acima de outras crianças. Ou seja, a tipicidade de gênero extrema é valorizada assim como a padrão, e garante privilégios ante as crianças que falham em cumprir esse padrão.

Aqui eu opino, talvez até mesmo hipotetize, que esta pressão para se conformar aos padrões normativos de papéis de gênero distorceu o que seria o curso natural de desenvolvimento das crianças gênero-atípicas e levou à criação da artificial normatividade de gênero da cultura gay e lésbica ocidental, especialmente o padrão gay masculino de “aparência heterossexual/performance heterossexual”, ao qual as crianças do sexo masculino gênero-atípicas devem aderir. Para aqueles fora da comunidade, o benefício desse padrão artificial era originalmente forçar os gays a permanecerem no armário. À medida que o movimento ocidental de Libertação Gay ganhava terreno, aqueles que haviam aceito tacitamente esse padrão começaram a forçá-lo sutil e não tão sutilmente.

Poderíamos, à primeira vista, acreditar que aqueles que acreditam na hipótese construtivista social forte não teriam escrúpulos em aceitar sem reservas crianças e adultos gênero-atípicos como rompendo estereótipos. Mas, como podemos facilmente discernir, muitas vezes não o fazem, como demonstrado pelo movimento minoritário dentro das comunidades gays e lésbicas (principalmente lésbicas) de ser “crítico-de-gênero”. Eles aprovam filosoficamente que as pessoas sejam gênero-atípicas… mas apenas até um ponto muito específico, aceitando os papéis normativos de gênero que foram estabelecidos durante o início do Movimento de Libertação Gay. No momento em que um indivíduo ultrapassa esse ponto, haverá aqueles que irão denunciá-lo como se ele estivesse seguindo os próprios estereótipos que ele quebra, mas no sentido do gênero oposto, negando aquele comportamento sexualmente dimórfico subjacente como válido.

Em alguns casos, foram feitas denúncias públicas da própria existência de indivíduos gênero-atípicos do sexo masculino (por exemplo, a denúncia pública de Jean O’Leary contra Silvia Rivera e outras transativistas androfílicas como estando “zombando das mulheres” na comemoração de Stonewall de 1973 por usar roupas femininas). Na internet hoje, essa mesma proscrição de papéis de gênero é feita quando mulheres trans androfílicas são rechaçadas nos termos mais feios: “só porque você é um homem gay, não significa que você pode ser desculpado por objetificar as mulheres (por parecer e agir como uma ).”  Assim, vemos que o policiamento de papéis de gênero com base na aceitação de padrões normativos de gênero existe mesmo nas comunidades LGB modernas.

REFERÊNCIAS

Pasterski, V., “Fetal Androgens and Human Sexual Orientation: Searching for the Elusive Link”, (2017) Archives of Sexual Behavior / https://link.springer.com/article/10.1007/s10508-017-1021-6

Pasterski, V., et al., “Postnatal penile growth concurrent with mini-puberty predicts later sex-typed play behavior: Evidence for neurobehavioral effects of the postnatal androgen surge in typically developing boys”, (2015) Hormones and Behavior / http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0018506X15000033#f0005

Quantos sexos humanos existem? (spoiler: dois)

Legendas disponíveis em EN e PT-BR.

Traduzido por Ágata Cahill

Há mais de dois sexos humanos?

(Resposta ao SciShow)

Por Zach Elliot, The Paradox Institute.
Canal com mais de seis milhões de seguidores publica vídeo defendendo a ideia de que “o sexo biológico é um espectro”.

Em 2019, o canal do YouTube de educação científica SciShow lançou um vídeo chamado ‘Existem mais de dois sexos humanos‘ [1]. O anfitrião Hank Green diz na introdução que: “Quando estudamos biologia no ensino médio, aprendemos que os humanos nascem com cromossomos XX ou XY e que os órgãos sexuais internos e externos de uma pessoa correspondem a esses cromossomos. Acontece, porém, que o sexo não é assim tão simples.”

Neste vídeo, Green descreve várias condições médicas congênitas do sistema reprodutivo para provar que existe um espectro de sexo. Essas raras condições (conhecidas como Diferenças do Desenvolvimento Sexual, DDSs para abreviar, e classicamente conhecidas como intersexo) produzem variações cromossômicas, hormonais e genitais atípicas [2].

Mas essas condições médicas congênitas formam novos sexos, criando um espectro sexual, como afirma o SciShow? Ou essas condições são simplesmente variações entre homens e mulheres, revelando a diversidade do binário sexual?

Para responder a essa pergunta, precisamos definir o que é sexo.

O SciShow define sexo como “cromossomos, hormônios, gônadas e genitais”. Essa definição de sexo implica que qualquer combinação atípica dentro dessas quatro categorias fornece evidências para um espectro sexual. O problema, no entanto, é que mesmo nos casos em que essas categorias não se alinham, os mecanismos genéticos e hormonais ainda produzem um macho ou uma fêmea. Por quê?

Porque os indivíduos com DDSs ainda desenvolvem sistemas reprodutivos organizados em torno de esperma ou óvulos. E aqui descobrimos um componente crucial para a definição de sexo que Green nunca menciona: gametas.

Um macho é o sexo que desenvolve um sistema reprodutivo organizado em torno de gametas pequenos, e uma fêmea é o sexo que desenvolve um sistema reprodutivo organizado em torno de gametas grandes. Como observam dois biólogos evolucionistas, os traços relacionados ao sexo variam, mas a distinção última entre os sexos é encontrada nos gametas: “Em muitas espécies, existe todo um conjunto de traços sexuais secundários, mas a definição fundamental de sexo está enraizada nessa diferença nos gametas, e a questão da origem dos dois sexos é portanto igual à questão de porque os gametas têm dois tamanhos diferentes” [3]. Qualquer definição de sexo que não inclua a razão pela qual possuímos um sexo em primeiro lugar (para apoiar a produção de espermatozóides ou óvulos) está errando o alvo [4]. Ao ignorar a definição de sexo, Green é capaz de afirmar que variações nos cromossomos, produção hormonal e morfologia genital formam novos sexos.

O problema com a afirmação de Green sobre um espectro sexual é que as DDSs não formam novos sexos, mas, sim, mostram a variação entre machos e entre fêmeas. Para criar um novo sexo, uma nova função reprodutiva teria que ser evidente, o que exigiria a existência de um terceiro tipo de gameta. No entanto, indivíduos com DDSs ainda desenvolvem um sistema organizado em torno de esperma ou óvulos, não algo novo.

Vamos revisar várias das condições médicas congênitas discutidas por Green. Indivíduos com cromossomos XXY e XYY, por exemplo, são machos (por desenvolverem um sistema organizado em torno de esperma); já indivíduos com cromossomos X ou XXX são fêmeas (por desenvolverem um sistema organizado em torno de óvulos) [5] [6] [7]. Compreender DDSs mais complexas revela os mecanismos subjacentes que produzem o binário sexual.

Condições como a Síndrome de Insensibilidade a Andrógenos Completa (CAIS) nos mostram a independência do gene SRY e dos receptores de andrógenos. Apesar da ativação do SRY, o feto XY com CAIS desenvolve um fenótipo feminino devido a uma insensibilidade aos hormônios androgênicos [8]. A síndrome de Swyer nos mostra que, quando o gene SRY não é ativado no feto XY, estruturas reprodutivas femininas se desenvolvem, levando a um fenótipo feminino [9]. A síndrome do sexo masculino XX nos mostra o que acontece quando o gene SRY se transloca para um cromossomo X, causando um desenvolvimento masculino no feto XX [10]. E indivíduos com mosaicismo genético, que têm uma mistura de células XY e XX, se desenvolvem como machos ou fêmeas, não ambos e não algo no meio [11].

Agora imagine ter uma diferença de desenvolvimento sexual, como a Hiperplasia Adrenal Congênita (que pode causar desenvolvimento genital atípico em meninas), e descobrir que sua condição está sendo usada para argumentar que você não é do sexo feminino [12]. Ou imagine ter a Síndrome do Duto Mülleriano Persistente, PMDS (que faz com que partes da estrutura mülleriana, como um útero parcial, permaneçam em meninos), e alguém afirme que você não é do sexo masculino [13].

Meninas com hiperplasia adrenal congênita são do sexo feminino, uma vez que se desenvolveram para a produção de óvulos, e meninos com PMDS são do sexo masculino, já que se desenvolveram para a produção de espermatozóides. Como você pode ver, cada DDS se desenvolve em direção a um ou outro sistema reprodutivo, e o indivíduo é ou macho ou fêmea, não algo intermediário, nem um terceiro sexo [14].

Se Green definisse o sexo biológico como as duas anatomias reprodutivas evoluídas e organizadas em torno de dois gametas, ele não poderia argumentar que existem mais de dois sexos [15]. Portanto, se você vir o vídeo do SciShow sendo apresentado, entenda que:

1) Eles não usam a definição fundamental de sexo.

2) Eles apresentam pesquisas de décadas atrás sobre DDSs, não novas descobertas científicas.

3) Eles tratam pessoas com condições médicas complexas como nem sendo do sexo masculino, nem do feminino.

Hank Green está correto sobre o desenvolvimento sexual ser mais complexo do que o que a maioria de nós aprendeu no ensino médio, mas isso não significa que haja mais de dois sexos humanos. Existem apenas dois gametas e, portanto, apenas dois sexos. As complexidades da diferenciação e desenvolvimento sexual nos mostram a incrível variação de anatomia e fisiologia entre machos e entre fêmeas [16]. Não precisamos negar a ciência para aceitar essa diversidade.

Fontes:

[1] Green, H. (2019). There Are More Than Two Human Sexes. SciShow, YouTube.

[2] National Health Service. (2019). Differences in sex development. NHS.

[3] Lehtonen, J., Parker, G. (2014). Gamete competition, gamete limitation, and the evolution of two sexes. Molecular Human Reproduction, 20(12).

[4] Czaran, T., Hoekstra. R. (2004). Evolution of sexual asymmetry. BMC Evolutionary Biology, 4(34).

[5] Kimball, J. (2020). Sex chromosomes. LibreText.org.

[6] Gilbert, SF. (2000). Chromosomal sex determination in mammals. Developmental Biology, 6th edition. Sunderland (MA), Sinauer Associates.

[7] Kashimada, K., Koopman, P. (2010). Sry, the master switch in mammalian sex determination. Development, 137.

[8] NIH. (2020). Androgen insensitivity syndrome. Genetics Home Reference, National Library of Medicine.

[9] NIH. (2020). Swyer syndrome. Genetics Home Reference, National Library of Medicine.

[10] Anik, A., et al. (2013). 46,XX Male DSD: A Case Report. Journal of Clinical Research in Pediatric Endocrinology, 5(4).

[11] Dumic, M., et al. (2008). Report of Fertility in a Woman with a Predominantly 46,XY Karyotype in a Family with Multiple Disorders of Sexual Development. The Journal of Clinical Endocrinology and Metabolism, 93(1), 182-189.

[12] NIH. (2020). 21-hydroxylase deficiency. Genetics Home Reference, National Library of Medicine.

[13] NIH. (2020). Persistent Mullerian Duct Syndrome. Genetics Home Reference, National Library of Medicine.

[14] Wilson, G. (2013). Third sex redux. Intersex Human Rights Australia.

[15] Cox, P., Togashi, T. (2011). The Evolution of Anisogamy, A Fundamental Phenomenon Underlying Sexual Selection.

[16] Schmitt, D. (2017). Sex and Gender are Dials (Not Switches), Psychology Today.

© 2020 Zachary A. Elliott, todos os direitos reservados.

Septversum | 2020

Acessar

Esta postagem existe para situar melhor aqueles chegaram no site em razão de minhas outras publicações e estão se deparando pela primeira vez com essa palavra esquisita.

O Septversum nasceu de meu interesse em convergir numa linha narrativa compartilhada diversos projetos que vinham maturando em minha cabeça e no papel ao longo dos últimos cinco anos. Escrevo ficção e me interesso por game dev desde muito nova, e sempre tive para mim que não importa que caminho seguisse na vida profissional (sou graduanda em Psicologia e aspiro a carreira acadêmica), eu só seria feliz enquanto pudesse criar.

Após aposentar os projetos aos quais dediquei a maior parte da adolescência (para os curiosos, os detalhes dessa fase estão também registrados no portal oficial da franquia), dei início aos rascunhos de meu debut oficial no mundo literário: uma obra de fantasia chamada Fairywood Tales, cujos capítulos, em vez de compilados e comercializados na forma de um ou mais livros, seriam publicados periodicamente e de graça ao público.

Os primeiros cinco “episódios” da saga estão disponíveis para leitura, mas sequer tenho certeza se a recomendo uma vez que tenho o forte interesse de realizar uma revisão drástica de seu conteúdo. É o que acontece, eu presumo, quando se começa a escrever uma história aos 16 anos e se vê precisando retomá-la aos 21, tendo que conciliar o que já está pronto com ideias novas e um estilo de escrita inevitavelmente mais amadurecido.

Em 2018, quando comecei a articular a franquia e soltei o portal no ar, tinha outros dois projetos em fase de pré-produção que seriam publicados por etapas juntamente com Fairywood Tales. Um deles mantenho “congelado” e em sigilo até acreditar ser enfim sua hora, mas o outro, The Ultimate Theory, havia ganho até seu primeiro teaser na época. O jogo, cuja proposta original não passava de um modesto tributo feito no RPG Maker ao canal The Game Theorists, foi evoluindo para uma obra independente muito mais ambiciosa, com um enredo essencial para a história que desejava contar com a franquia.

Naquele mesmo ano, porém, me vi tendo que abandonar esse e basicamente todos os outros aspectos da minha vida normal quando recebi o diagnóstico de leucemia linfóide aguda (poderia falar só “problema de saúde”, mas nunca fui uma garota de eufemismos). Dois anos e um transplante de medula depois, me sinto pronta para seguir em frente de onde parei. Meu trabalho, ao menos por enquanto, irá focar no lado literário do Septversum.

Meus três objetivos principais para esse ano são, dessa forma:

  • Atualizar este blog o máximo possível, com no mínimo um ensaio e três traduções todos os meses.
  • Revisar e republicar os primeiros cinco episódios de Fairywood Tales (Capítulo I – Vale Celestial), além de preparar e finalizar os quatro seguintes (Capítulo II – Estrela Azul).
  • E, talvez o mais importante no momento… Concluir meu novo e provavelmente mais ousado projeto: um livro – e este sim tenho intenção de publicar – que mistura sátira política e ficção científica. Uma obra ácida sobre um país que é estranho pela própria natureza.

Esta postagem será atualizada ao longo do ano sempre que tiver alguma informação nova para trazê-los.

Nos vemos em breve!

Traduzi um jogo sobre YouTubers e olha no que deu

Aprender uma nova língua é como desbloquear uma mecânica nova em um jogo. Quando se domina apenas o idioma materno, ficamos limitados a só consumir o conteúdo disponível no mesmo, conhecer não mais do que uma amostra gratuita do que o mundo pode realmente nos oferecer. Ter a oportunidade de estudar Língua Inglesa quando ainda adolescente foi, portanto, um dos privilégios mais transformadores da minha vida e uma das forças mais cruciais para que eu me tornasse a pessoa que sou hoje.

Seja gastando horas vendo canais estrangeiros no Youtube sem depender de legendas, preparando o material para minha próxima aula (fui docente no programa PROLINFO, da Universidade de Pernambuco) ou interagindo em comunidades online onde todos, seja qual for sua localização no planeta, podem se comunicar tranquilamente, falar inglês me proporcionou experiências únicas e incríveis.

E uma das mais singulares dessas experiências possivelmente envolve seu youtuber favorito.

Vamos dar um pouco de contexto: em meados de 2016, um modesto game indie produzido por um rapaz da Polônia acabou se tornando um viral na plataforma. Estando o vídeo do canal francês SQUEEZIE no topo do ranking (6,4 milhões de views), seguido do chileno JuegaGerman (4,6 milhões) e do ícone irlândes jacksepticeye (3,8 milhões), não é difícil associar o sucesso do jogo com sua temática, que não poderia ser mais meta: Tube Tycoon era, como o nome sugeria, um simulador de… youtubers.

Alguns canais brasileiros também testaram a versão beta na época, como o do Hagazo e Febatista.

Após conhecer o jogo em um episódio do GTLive, livestream do meu crush Matpat, passei a acompanhar o processo de desenvolvimento do título até sua tão aguardada versão final – o que eu não imaginava até então era que acabaria fazendo parte disso.

Uma seleção depois e lá estava eu no Discord sendo apresentada pelo criador do game, Bionicl, aos dois outros brasileiros com quem iria trabalhar nos próximos meses. (Na verdade, um deles sumiu na metade do caminho, então o conteúdo final ficou meio que dividido igualmente entre o @ArrasaMonkey e eu.)

É aqui que as coisas ficam interessantes. Se você fosse selecionado para ajudar a trazer um game para o mercado do seu país, teria apenas que se preocupar em fazer um bom trabalho traduzindo corretamente a interface, os diálogos e demais elementos da obra. Alguma adaptação poderia ser feita aqui ou ali, mas nada que essencialmente alterasse o conteúdo original. Mas esse não era o caso do Tube Tycoon, e é exatamente por isso que digo que essa foi uma “experiência singular”.

Ora, se estamos falando de algo que deveria emular o Youtube, por que não tentar aprimorar a imersão do jogo com um conteúdo que seja familiar ao player, algo único e especial para cada língua disponível? Há muito sobre a cultura da comunidade youtuber de cada país que só pode ser aproveitada e compreendida por quem a consome. E nós somos brasileiros. Nosso lore no campo dos memes é no mínimo extenso.

Comprando a ideia animadamente, Bionicl levantou o cartão verde e nos deu a liberdade artística de dar um “toque brasileiro” em quase tudo diante de nós dois: conquistas da Steam, títulos de vídeos e, acima de tudo, comentários. Ah, os comentários. Se você testar alternar entre os idiomas enquanto joga e os abre, irá perceber que 40-50% dessa parte do banco de dados foi “substituída” com piadas originais na versão PT-BR, sejam elas referências à internet BR ou tentativas minhas de simular fãs, haters e trolls que você veria (ou gostaria de ver) no último vídeo que assistiu.

Febatista sendo vítima do melhor (ou pior) que o humor Agatístico pode oferecer

Sem mais delongas, segue abaixo um compilado das principais referências que tive o prazer de deixar para vocês por lá:

Youtubers

Poliana Izzy Nobre

Outros


Fun fact: o TubeVideo, plataforma-paródia do Youtube no jogo, existe dentro do Septversum. Pedi permissão ao Bionicl para usar tal conceito em The Ultimate Theory, projeto futuro da franquia.

“Energia positiva de cobra é veneno” e outras coisas que concluí após o câncer

TO WHOM IT MAY CONCERN.

Todos estamos, mesmo quando tentamos evitar, em permanente mudança. Cada escolha que tomamos, acaso ou consequência com que lidamos, dos decisivos aos mais banais, é responsável por nos manter sempre um pouco diferente da pessoa do minuto anterior. E alguns eventos em especial, num efeito dominó, trazem uma carga potencial de “mudança” maior do que muitos outros.

Esses eventos podem oferecer novas perspectivas sobre assuntos que já nos eram familiares ou, quem sabe, abrir espaço para outros dos quais nunca paramos para refletir. Eles podem confirmar ou refutar nossas crenças e conclusões prévias sobre o mundo, cristalizar uma linha de raciocínio ou alterá-la radicalmente.

Prazer, meu nome é Ágata. sou uma mulher transexual de vinte anos de idade. Na metade do ano passado, 2018, fui diagnosticada com Leucemia Linfóide Aguda. No momento em que escrevo isso, estou apenas a alguns meses de distância de realizar um transplante de medula óssea e, possivelmente, encontrar minha cura. Esse texto é um compilado do que eu aprendi no meio do caminho, e hoje julgo importante compartilhar.

Fico feliz que esse título curioso tenha fisgado sua atenção. Preparado para o relatório?


SUMÁRIO

  1. Emoção e razão são conflituosas, porém complementares. Emoções são importantes pois são experiências humanas legítimas, a razão é importante pois permite que continuemos sãos para vivermos as primeiras de forma saudável.
  2. O maior ato de empoderamento que posso realizar enquanto “minoria oprimida” é não ter medo de ser honesta e transparente em um mundo de extremos.
  3. É preciso valorizar sua família até a última instância viável, pois nela se encontram as pessoas com a maior probabilidade de advogarem por sua vida.
  4. Energia positiva de cobra é veneno.

1. EMOÇÃO E RAZÃO

Emoção e razão são conflituosas, porém complementares. Emoções são importantes pois são experiências humanas legítimas, a razão é importante pois permite que continuemos sãos para vivermos as primeiras de forma saudável.

Você se considera uma pessoa emotiva ou racional? De que forma seu melhor amigo responderia essa pergunta sobre você? E seus pais? E seus inimigos? Como você reagiria diante da até então pior notícia da sua vida? E da melhor? O que a resposta da primeira pergunta tem realmente a ver com a resposta de todas as outras?

Nos primeiros dias de setembro, quando o hematologista me encarou nos olhos e revelou que o diagnóstico mais provável pro meu problema era leucemia, eu o encarei de volta, passei o olhar no rosto da minha mãe por alguns segundos e fiz florescer em minha mente um único e profundo pensamento que me acompanhou por todo o resto da conversa:

“Puta merda, meu cabelo vai cair.”

Há várias formas de se interpretar a reação de alguém que, ao receber o diagnóstico de câncer, não expressa de imediato nenhum pensamento ou dúvida mórbida; alguém que passa longe dos clássicos relatos de sentir “o chão abrindo”, ficar paralisado, ficar tudo menos paralisado, chorar até parecer um tomate murcho ou pedir por um exame novo, um médico novo, um hospital novo e, no caminho, um copo d’água, por favor.

“Você é a pessoa mais forte que eu conheço”, escutei de alguém. “Eu, no seu lugar, estaria em prantos até hoje”, escutei de outra. “Você desafia a imagem do papel de doente“, comentou uma ex-professora do curso de Psicologia, graduação que tive que pausar temporariamente para dar seguimento ao tratamento. “Mas afinal, se não temeu pela vida, o que pensou na hora?”, muitos ficaram curiosos.

E é então que você descobre que quando a informação “ausência de morbidade” é complementada pelas seis palavras que legendam a imagem mais acima, os elogios e a admiração que vinha recebendo logo se convertem em descrença e uma urgência inquietante do ego alheio de te esclarecer o óbvio.

Pois há, também, várias formas de se interpretar a reação de alguém que, ao receber o diagnóstico de câncer, teve como primeira e protagonizante preocupação a queda do próprio cabelo.

Talvez você não tenha – por ignorância, quem sabe -, entendido com clareza a gravidade da sua doença. Talvez seja, na falta de um melhor vocabulário, exageradamente vaidosa. Talvez o patriarcado opressivo e o culto à beleza e confirmação da feminilidade tenham corrompido sua mente ao ponto de fazê-la perder o foco do seus “reais” problemas.

Ou, talvez, você esteja tão ciente de todas essas particularidades e nuances, que nesse momento você só queira ficar triste e frustrada em paz por aquilo que está de fato a angustiando, e não pelo que todas as outras pessoas ao seu redor esperam que você se angustie.

Essa é a importância da emoção. Por mais passageira e por vezes difícil de se decodificar pelo olhar alheio, é verdadeira enquanto existe e é parte do que nos faz humanos. A razão, por sua vez, aquela que permite essas e tantas outras reflexões legítimas e bem-fundamentadas sobre o complexo mundo em que estamos inseridos e nossa relação com ele; aquela que pavimenta nosso caminho de amadurecimento, evolução intelectual e construção da identidade; é importante pois, quando equilibrada com nossos sentimentos mais confusos, impulsivos e inevitáveis, permite que continuemos plenamente sãos para desfrutarmos a vida e suas emoções de forma saudável.

Sim, é verdade que o contexto não era dos mais animadores: por pressão familiar, sempre precisei manter um corte baixo, “de garoto”, até mais ou menos meus dezessete anos. Dessa idade até os vinte, esperei ansiosa para vê-lo como o havia idealizado a vida quase inteira. E então, apenas uma semana após atingir o tamanho desejado, o assisti se despedir de mim no tempo de uma ducha.

Sim, doeu. Doeu muito. Por mais problematizações que possam fazer a partir desse relato, por mais culto e “empoderado” que seria sair do banho discursando coisas como “Foda-se o cabelo! Cabelo não dita beleza! Não tem nada a ver com gênero, não tem nada a ver com nada!“, distribuindo ao vento fotos tiradas do Google de mulheres lindas, cis e trans, carecas ou quase, aquele terrível sentimento permaneceria real. Era uma resposta a uma perda. Querer “desconstruir” o que já se encontra desmontado no chão soa, com toda sinceridade, desumanizante.

Para concluir, à vista de tudo isso e pondo da forma mais sucinta que posso, meu cabelo, por mais relevante para minha autoestima que pudesse ser, estava dentro do meu alcance de atuação por ser tecnicamente substituível com algo ao redor de cem reais; minha saúde, não.

Eu não tenho controle sobre minha doença. Posso até ajudar a mim mesma durante o caminho, mas estou longe de ser capaz de estralar os dedos e evaporar minhas células cancerígenas, tampouco preparar uma poção para desfazer as mutações genéticas aleatórias que, ao que tudo indicam, causaram meu quadro. Só o tempo e um bom tratamento poderiam me salvar: logo, seria um inquestionável desperdício de energia me descabelar (sei que vou me arrepender desse trocadilho) ocupando minha mente com coisas que estão fora do meu alcance de atuação.

No final das contas, seguindo pelo caminho que segui, creio que pude tanto vivenciar plenamente meus sentimentos quando eles vieram quanto usar da razão para administrar minhas energias e encarar minha questão-problema da melhor forma que conseguiria. E o melhor: sem ter gastado um só centavo com palestras de coaching.


2. EMPODERAMENTO

O maior ato de empoderamento que posso realizar enquanto parte de uma “minoria oprimida” é não ter medo de ser honesta e transparente em um mundo de extremos.

Acredito que o contexto que preciso apresentar para explicar minha próxima realização não seja grande novidade para você. Por via das dúvidas, caso você tenha estado em coma pelos últimos, eu não sei, dois ou três anos, tenho uma péssima notícia para dar: nosso país está dividido entre dois extremos fora do alcance da ordem e da razão e muito provavelmente você, assim como eu, não possui os recursos para dar o fora daqui o mais rápido possível.

Charge por Zé Dassilva

Como a raiz de boa parte do problema está na perda da capacidade de percepção de nuances em si, e não apenas nessa perda em um espaço ou âmbito específico, sua extensão vai muitíssimo além do que o mero cenário político brasileiro. Imagino, porém, que esse seja o exemplo mais palpável que poderia usar nessa introdução. E conheço alguém bem melhor do que eu para falar sobre ele:

Cada um dos doze minutos desse vídeo do chargista Maurício Ricardo vale a pena ser assistido – logo, fica minha recomendação para conferi-lo até o final -, mas a razão de escolhê-lo se apresenta na fala já de seus primeiros segundos: “Sabe aqueles filmes de bairros perigosos que têm disputas entre duas gangues, e é melhor você andar com uma gangue, senão você vai apanhar das duas? Então, essa é a internet do Brasil hoje.”

Certa vez ouvi alguém dizer que “se você ainda não foi chamado pela extrema-direita de comunista e pela extrema-esquerda de fascista, você ainda não viveu”. Outros afirmam ainda que se você conseguiu irritar os dois lados do espectro ao mesmo tempo, é porque muito provavelmente está seguindo no caminho certo.

Se estou “no caminho certo” não posso garantir, mas de uma coisa eu sei: sempre que me forcei a ter uma visão crítica minimamente equilibrada sobre literalmente qualquer assunto, rótulos não me faltaram. Não faltaram em situação alguma, para falar a verdade. Tenha em mente que para muitos, o simples fato de me colocar no mundo enquanto transexual (ou seja, de existir) já é um ato político em si, quando não uma blasfêmia. Parece até exagero pensar que, para alguém, a sua própria existência seja uma espécie de crime contra uma ordem divina, mas falo bem sério que é exatamente assim que uma grande parcela da população foi ensinada a enxergar “pessoas como eu”.

O resultado dessa grande bagunça chega a ser engraçado de analisar:

Por defender os ideais de equidade que defendo, já fui acusada de “problematizar demais” por uns e de “passar pano demais” por outros.

Por me identificar com o centro e pontos específicos de cada “lado”, já fui “esquerdopata” e “simpatizante da direita” no mesmo dia.

Por questionar tanto as pautas da militância LGBT+ na contemporaneidade quanto os embustes armados contra a mesma, já fui diagnosticada como tendo sofrido “lavagem cerebral da justiça social” na mesma proporção que “transfobia internalizada”.

E por ser quem eu sou e pensar o que penso sobre o que sou, já fui chamada de “negador da ciência” (no masculino mesmo) por alguém que claramente não tinha noção de 1% do que a ciência realmente fala sobre transexualidade, e associada pejorativamente ao “discurso cientificista” não por de fato propagar uma ideia cientificista, mas rejeitar a leitura pós-moderna de que a verdade (e, por tabela, a objetividade científica) é construída pelo poder.

Percebo ser um choque para alguns descobrir que nem toda pessoa com meu perfil (trans, estudante de Psicologia, liberal, etc) é invariavelmente adepta ao construtivismo social ou trata os trabalhos de Foucault como a Bíblia Sagrada. Se for esse seu caso, deixo aqui minhas desculpas pelo transtorno que causei e meu mais sincero vá pela sombra.

Onde quero chegar e o que isso tudo tem a ver com empoderamento?

Lembra-se do que o Maurício falou sobre gangues? Haveria um tempo onde eu teria receio de expressar minhas opiniões sobre determinado assunto por saber que tais ideias e proposições iriam de encontro com o discurso dominante no qual minha “gangue” havia sido cuidadosamente catequizada durante sua procura por acolhimento.

Haveria um tempo onde eu pensaria duas vezes antes de defender o conteúdo do DSM-V (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais; 5.ª edição) em uma roda de conversa sobre a “despatologização da transexualidade”. Há relutância em boa parte da comunidade acadêmica em enxergar que isso já aconteceu desde que “Transtorno de Identidade de Gênero” virou “Disforia de Gênero”, e que nossos esforços deveriam agora estar focados nas aplicações práticas disso. Em vez disso, damos voltas querendo consertar o que não está quebrado porque essa ou outra terminologia pode ser ofensiva para certos “doutores em estudos de gênero” que parecem terem sido condicionados a se ofender de forma recreativa.

Mas se há algo que os movimentos identitários defendem é que você seja uma “pessoa empoderada” que, respeitando o local de fala do outro, não hesita antes de se pôr contra a injustiça e os discursos autoritários e reacionários.

Charge por Ivan Cabral

E aqui estou eu, empoderada e dentro do meu hipotético “lugar de fala” afirmando que o maior ato de empoderamento que eu poderia realizar enquanto parte de uma minoria é o mesmo do de todas as outras pessoas em um mundo onde todos, sem exceção, cada qual da sua forma, sofrem com o tribalismo social: não ter medo de ser honesta e transparente sobre o que acredito, mesmo que isso signifique questionar minha própria tribo.

É preciso ter humildade na hora de defender suas opiniões. Você sempre pode estar errado. Ao mesmo tempo, reprimir o produto das próprias reflexões sobre o mundo em função da aceitação dentro de uma “facção” é um lugar do qual eu prefiro esquecer o caminho.


3. FAMÍLIA

É preciso valorizar sua família até a última instância logicamente viável, pois nela se encontram as pessoas com a maior probabilidade de advogarem por sua vida.

Se você tem a minha idade ou menos, talvez esteja exausto de ouvir pessoas mais velhas falarem sobre como elas achavam que “sabiam de tudo” na sua idade e como a vida se encarregou de lhe quebrar a cara na hora certa. Sinto informar que eu serei mais uma delas.

Ao mesmo tempo, se você é mais velho e/ou por acaso nunca teve que se preocupar com a forma com a qual sua família iria reagir ao descobrir sua sexualidade ou identidade de gênero, é possível que tenha lido minha terceira realização e pensado “Mas e por quê raios ela não valorizava a família plenamente antes da doença?!”

Me permita falar um pouco sobre meus pais, as pessoas que a vida inteira o mundo me ensinou serem “meu porto seguro, aconteça o que acontecer”. Eles não absorveram a ideia de que haviam tido uma filha em vez de um filho da melhor forma que achei que poderiam, mas com toda certeza não receberam isso da pior. No mais, era quase como se eles fingissem que não sabiam de nada. Por ter acabado nesse “meio termo”, passei o período de um ano em uma espécie de limbo emocional onde eu não exatamente podia dizer que havia sido acolhida, mas também não poderia lamentar ter sido chutada para fora de casa.

Assista ao curta “The Real Thing” clicando aqui ou na imagem. Lenços recomendados.

Nessa época, lembro de estar atravessando um dos corredores da faculdade com uma amiga quando ela, após me ver cumprimentando, quem sabe, a décima pessoa na última meia hora, brinca sobre como eu “conhecia metade da faculdade” e que se continuássemos naquela situação, chegaríamos ao nosso destino a tempo da festa de formatura começar.

Parece legal, não parece? Ter tantos rostos amigos por perto.

Agora, vou fazer uma pergunta sobre a fase seguinte da minha vida, e quero que tome o tempo que precisar para adivinhar a resposta: quando eu fui diagnosticada com câncer e precisei, durante o tempo de sete meses, ficar cerca de vinte dias por mês internalizada no hospital onde fazia o tratamento, quantas pessoas além da minha mãe passaram pelo menos uma única noite comigo sem receber nenhum centavo em troca?

Vou dar uma dica: é um número redondo e rima com “esmero”.

Espero que não me entenda mal; não é minha intenção aqui fazer um caso sobre minha árvore de amizades. De certo houve desejo em me ajudar e até algumas ofertas (não concretizadas) envolvendo finais de semana; não podemos deixar de levar em conta, também, que o tratamento não aconteceu na minha cidade, mas sim em Recife, onde até então eu deveria ter menos de meia dúzia de conhecidos próximos.

Mas se você parar um momento e fizer o exercício mental de se imaginar na minha situação e se perguntar quem seria capaz de largar tudo o que está fazendo e mudar radicalmente de rotina, f- as consequências, para te acolher em um hospital até do outro lado do país… é muito provável que a resposta esteja no seu círculo familiar.

É por isso que quando me deparo com aquele famoso “Mal vejo a hora de morar sozinho!” vindo de um adolescente de quinze anos que se sente incompreendido pelos pais, o melhor que posso fazer é aconselhá-lo a ter paciência e torcer para que ele não seja tão tolo quanto eu fui aos meus quinze anos, e que ao menos tente trabalhar isso em si mesmo.

Não se enganem: existe um bom motivo para especificarmos “até a última instância viável”. Há famílias genuinamente destrutivas por aí. Pais podem ser abusivos de inúmeras formas, partindo das mais sutis chantagens emocionais até a mais flagrante agressão física ou sexual. Seus atos devem ser reconhecidos e devidamente intervencionados. Também não é minha intenção chegar no ouvido ensanguentado de uma vítima de agressão cometida pelo próprio pai e dizer que “Mas sabe, gente velha é assim mesmo, você deveria ter mais paciência com ele!”. Minha mensagem não está sendo direcionada à essas pessoas, mas sim àquelas que estiveram ou ainda estão no mesmo local que eu estive: o limbo do meio termo.


Eu não sei você, mas se eu visse esse girassol em algum lugar, correria para o mais distante que pudesse.
Cantando a discografia da Aline Barros.

4. ENERGIA POSITIVA

…de cobra é veneno.

Faziam só algumas semanas desde o início do meu tratamento quando, ainda no hospital, me vejo discutindo com a minha mãe sobre quem poderia ou não me visitar quando eu voltasse para casa.

“Mãe, eu não vejo essas pessoas há uma eternidade. Elas podem até se preocupar comigo em algum nível, mas se eu não tinha intimidade ou vontade de vê-las quando estava saudável, não há razão para fazer isso quando estou doente.”

“Mas são pessoas boas, pessoas que querem seu bem.”

Franzi a testa. Havia meses antes escutado por alto que uma delas teria insinuado que eu “acreditava ser trans” por “ter sido muito mimadO” pelos meus pais – e isso mesmo tendo sido criada da mesma forma que meu irmão, cis e heterossexual. (Mas seria pedir demais algum grau de raciocínio dessas pessoas , eu acho.)

“Eu tenho minhas dúvidas”, respondi.

“Independente (sic) de qualquer coisa, são pessoas que querem te ver e te dar uma força. É bom ter pessoas assim por perto. Elas passam energia positiva.”

“Mãe”, respondi, respirando fundo. “Energia positiva de cobra é veneno”.

Houve silêncio por um momento. É engraçado pensar como podemos soltar pérolas desse calibre e depois não fazermos ideia sobre o que nos levou até elas. Não sei em que trabalho esquisito de raciocínio meu cérebro se empenhou para trazer essas palavras ao mundo, mas devo confessar que quanto mais penso nelas, mais interpretações novas faço e ligações com situações anteriores da minha vida encontro.

A principal delas é o conceito que batizei de muleta emocional.

Imagine que você está andando na rua com um amigo, reclamando com ele sobre o bolo que levou do seu match do Tinder. No caminho você sugere que ambos se dirijam ao destino a pé, pois assim você poderá compensar os quilos que ganhou na noite anterior enquanto comia descontroladamente e/ou bebia irresponsavelmente para esquecer o desgraçado ou desgraçada que partiu seu coração.

De repente, uma surpresa: você esbarra em uma versão pouca glamourosa minha – careca, usando uma máscara descartável e debatendo com a minha mãe sobre a natureza duvidosa do café da manhã do hospital que vem sendo minha casa nos últimos seis meses. Você para, me abraça, faz suas perguntas genéricas sobre como estou e o que andei fazendo e se despede forçando um olhar de compaixão com tanta diligência que poderia facilmente roubar o emprego de metade do elenco de Malhação.

Com o coração tocado, você encara seu amigo e discursa: “Poxa, olha pra mim, cheio de saúde e reclamando desse monte de besteiras… Pelo menos eu não tenho câncer igual ela. Não tenho do que reclamar.” E assim, orgulhoso do grande exemplo de ser humano evoluído que você é, explica que não está mais na vibe de caminhar e resolve pegar o ônibus mesmo.

Curtiu a historinha? Já passou por alguma coisa parecida? Se sim, meus parabéns: você acabou de usar a deficiência de saúde de outra pessoa como ferramenta para se sentir melhor consigo mesmo e o estado da sua vida.

Não que eu queira demonizar você. Virtualmente todo mundo já fez uso dessa “muleta”, começando por mim! Ela pode, é interessante notar, se alongar indefinidamente entre a saúde plena e a morte dolorida. Em sua extensão, você encontrará pessoas que agradecem terem rinite alérgica e não câncer de rim, conhecerá pessoas com câncer de rim preferindo isso do que LLA, verá portadores de LLA agradecendo não sofrerem de sua variação mais grave, a LMA (Leucemia Mieloide Aguda) e se deparará com portadores de LMA concluindo que “Bem, ao menos não é Mielóide Crônica”.

Em resumo, “nada é tão ruim que não possa piorar”, e é esse pensamento que (ironicamente) conforta incontáveis pessoas por aí afora que precisam encontrar alguma forma de lidar com os eventos caóticos de sua vida. Não há nada de tenebrosamente imoral nesse pensamento – a não ser, é claro, que você o use de forma abusiva, pedindo detalhes sobre problemas alheios para poder compará-los com os seus. E, acima de tudo, caso a pessoa em questão acredite que está recebendo energias positivas vindas de você.


É disso que estão falando? E onde exatamente eu deveria introduzir? Posso testar em vocês primeiro?

A esse ponto do texto você já deve suspeitar que eu não sou a pessoa mais propensa a levar a sério argumentos que envolvam abstrações como “energia positiva”. Tenho certeza que estar perto de pessoas que gosto irá me fazer sentir bem, mas isso não necessariamente vai se repetir com a presença de meu primo de trilionésimo grau só porque ele está invocando algum tipo de superpoder metafísico para transmitir ondas de positividade enquanto me abraça, seja lá o que isso signifique.

Não sejamos ingênuos. Se conto para você que encontrei um doador de medula e receberei um transplante muito em breve, saberei diferenciar entre quem reage gritando “OH, MEU DEUS! QUE COISA MARAVILHOSA!” de quem fala “Caramba, mas a quimio que se faz antes é bem pesadinha, né?”. Objetividade é legal e eu muito aprecio quem consegue dizer o que precisa ser dito na minha cara sem arrodeios, mas se essa foi realmente a primeira coisa que você pensou quando ouviu minha notícia, talvez eu consiga uma energia positiva de melhor qualidade enfiando o dedo na tomada.


Conteúdo bônus: tweets da época em que eu fazia piadas sobre a minha própria doença para poder lidar melhor com ela (e ainda faço).


…Só me resta torcer agora para que esse câncer tenha sido uma aventura de uma temporada só. As próximas lições da vida eu posso aprender com um livro de autoajuda, obrigada.